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Padre Francisco Faus








Fé, Verdade e Caridade          
Pe. Francisco Faus



FAMÍLIA – LUZES NO LAR
30 de março de 2020 PeFaus@1928




Ponto de luz:
«Às vezes, fala-se do amor como se fosse um impulso para a satisfação própria, ou um simples recurso para completarmos em moldes egoístas a nossa personalidade. E não é assim: o amor verdadeiro é sair de si mesmo, entregar-se. O amor traz consigo a alegria, mas é uma alegria com as raízes em forma de cruz… O amor deve ser renovado dia a dia; e o amor se ganha com o sacrifício, com sorrisos, com arte também» (Entrevistas a Mons. Escrivá, nn. 43 e 107).


Um projeto a ser realizado
 

São Josemaria falava sempre de que os lares cristãos deveriam ser «luminosos e alegres».
 

Enchem-se de luz os lares em que o casamento e a família são vistos como um «projeto» a ser realizado dia após dia, entre os três (marido, mulher e Deus). Entendem que o matrimônio cristão é – como o sacerdócio – uma «vocação» e uma «missão», que o dia das núpcias é apenas um início, que exigirá um aprendizado, uma retificação, um aprimoramento e uma renovação contínuos[1].
 

Alguém dizia, com aparente seriedade, que «o matrimônio não existe», e com isso queria significar que é como o projeto
de uma construção apenas planejada; só se tornará real quando os esposos, com a oração, com  o aprofundamento na formação cristã, e a experiência, comecem a construí-lo. E deve ser uma construção permanente, diária, uma tarefa que durará a vida inteira.
 

Precisarão os esposos de cuidar dos alicerces, as bases fortes de um ideal familiar cristão; e escolher os melhores materiais: as virtudes humanas e sobrenaturais aplicadas a cada situação, fácil ou difícil: fé, esperança, amor, prudência, fortaleza, generosidade, desprendimento, justiça, etc.
 

O alicerce insubstituível da família, como de toda a vida cristã, é Cristo, que está sempre pronto para ajudar, mediante graça do Sacramento do Matrimônio. Cada um veja como constrói – dizia são Paulo –. Quanto ao fundamento, ninguém pode colocar outro  diverso do que foi posto: Jesus Cristo (1Cor 3,10-11).
 

Sobre esse alicerce, os materiais são as virtudes. Uma família, um lar, construído sobre o direito de ser feliz e os meros sentimentos, é uma casa de papel que um fósforo pode reduzir a cinzas.
 

Ora, entre as muitas virtudes que se devem conjugar para a edificação de uma família bela e sólida, penso que há duas que têm um papel fundamental: a humildade e a generosidade.
 

A humildade


Quando se cultiva essa virtude, vai-se adquirindo um «seguro de amor», que previne a falência. O que desgasta a família é quase sempre a falta de humildade: quer se chame soberba, egoísmo, susceptibilidade, teimosia, prepotência… Tudo isso são colorações diversas do orgulho.
 

A experiência mostra que as duas frases de santos que vou citar a seguir estão carregadas de razão:
 

Santo Agostinho: «Não há caminho mais excelente que o do amor, mas por ele só podem transitar os humildes».

São Josemaria: «A soberba é o maior inimigo da vida conjugal».
 

Sugiro que se examine sobre algumas manifestações de humildade, que anoto a seguir:
 

O respeito mútuo dos esposos. Cada ser humano é imagem de Deus, e só por isso merece ser respeitado. São Josemaria recordava que Cristo morreu por todos, e que «cada um vale todo o sangue de Cristo». Quando se perde o respeito entre marido e mulher, torna-se impossível a compreensão e o diálogo. Crescem as humilhações mútuas, a grosseria, o desprezo e a injúria, falhas que são a peste do amor.
 

Com o egoísmo, o marido tende para a passividade no lar, para a poltrona, o jornal, a tv, e outras formas de esquecimento dos problemas domésticos. A mulher tende a cair no desleixo na apresentação, nas reclamações excessivas e nos maus modos; e os nervos ficam mais prontos para disparar.
 

Um excelente ato de respeito é saber escutar, sem menosprezar a pessoa que fala. A Imitação de Cristo diz: «Não queiras confiar demais na tua opinião… Sempre ouvi dizer que é mais seguro ouvir e receber conselho do que dá-lo… É sinal de orgulho e teimosia não querer concordar com os outros quando a ocasião e a razão o pedem»[2]. A virtude da prudência – muito ligada à razão e à reflexão – é a que nos indicará quando convém calar e escutar e quando falar.
 

A misericórdia, que é a capacidade de compreender e relevar as misérias alheias, assim como Deus compreende e perdoa as nossas. Consiste em saber desculpar, em não revidar na hora, em tratar de esquecer, mudar de conversa, perdoar. Perdoai e sereis perdoados, dizia Jesus (Lc 6,37), e respondendo a uma pergunta de Pedro sobre a frequência do perdão, disse-lhe que é preciso perdoar não só sete vezes, mas setenta vezes sete (Mt 18,22).
 

Custa perdoar. Sem dúvida. Mas, com Deus, podemos. Peçamos-lhe que Ele, todo poderoso, queime o arquivo maligno que guardamos no coração, contendo a lembrança de todas as mágoas antigas e recentes. Essas mágoas que, quando um esposo ofende o outro, emergem como uma lista interminável de recriminações e acusações mútuas. Como sofre o amor por não termos sabido calar e abandonar as nossas dores nas mãos de Deus!
 

A gratidão. É importante agradecer tudo, até os menores serviços e atenções, com simplicidade; sem cair no acostumamento, como se tivéssemos direito a tudo. É um conselho que o Papa Francisco não se cansa de repetir aos casais. Costuma falar de «três palavras-chave» para fazer o casamento durar: “Posso?”, “Obrigado” e “Desculpe”[3]. Pense que um pequeno elogio, uma palavra amável bem escolhida, é como pó de estrela que ilumina o dia.
 

A generosidade


Amar é dar, sobretudo é dar-se. O egoísta só pensa no que recebe, e então calcula com uma balança interior mesquinha o pouco que dá. O generoso é como Jesus, que não se poupou em nada e deu a vida por nós.


Vamos lembrar agora apenas dois aspectos da generosidade no cotidiano do lar:


Ultrapassar-se a si mesmo. Não pensar: «Já faço muito, faço até demais». O coração generoso sempre diz: «Plus ultra» – «Mais além», como os antigos navegantes.
 

Às vezes, esse «além» será algum sacrifício mais custoso, que exige vencer o bem-estar e o comodismo. Mas, na maioria dos casos, será «ir além» em pequenos pormenores: nas coisas pequenas que renovamos, na inventividade no cuidado das coisas mais comuns (como evitar a monotonia nas refeições ou nos assuntos de conversa; como cuidar da limpeza e dos enfeites que alegram o lar; ou como vencer o desleixo no arranjo pessoal). É aí onde se deve concentrar o espírito que refaz tudo, que transforma o mais comum em uma floração cheia de surpresas e de encanto.
 

Para finalizar, pensemos que é da máxima importância o cultivo constante da vida espiritual. Já víamos que Deus deve ser
o Mestre de obras na construção do lar. Vou acrescentar agora que Ele deve ser a Vida da vida dos protagonistas do lar. Alimentemo–nos do Pão de Deus na Santíssima Eucaristia, da sua Palavra na oração; das outras práticas de piedade próprias do homem e da mulher de fé; e peçamos uma maior participação nos frutos do Espírito Santo, que enumera são Paulo: amor, alegria, paz, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (Gl 5,22-23).


[1] Cf. nosso livro A paz na família, 2ª edição, Quadrante 1999

[2] Livro I, capítulo 9

[3] Ver a Exortação apostólica Amoris laetitia-A alegria do amor, de 19 de março de 2016, n. 133


Artigos Relacionados:
19-O AMOR SEM ROTINA
A alma das virtudes humanas
15-A BONDADE
Novena breve da família: 4)
IMAGENS E SÍMBOLOS: PRISÃO DE ESPELHOS


Padre Francisco Faus

 Pe. Francisco Faus

Contato: 
francisco@padrefaus.org



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